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quarta-feira, 21 de março de 2018

KikA Castro

Fonte https://kikacastro.com.br/2018/03/21/resenha-livro-casa-do-ceu/

‘A Casa do Céu’: otimismo e fé são ferramentas de sobrevivência
Enquanto eu lia “A Casa do Céu”, especialmente as páginas mais finais, só me pegava pensando: “Como ela saiu dessa? Espero, de verdade, que hoje esteja bem”. Eu sabia que Amanda Lindhout, a autora, tinha sobrevivido ao sequestro na Somália — afinal, ela tinha que estar bem, inclusive psicologicamente, para conseguir escrever este livro, cinco anos depois. Quis interromper a leitura várias vezes para acessar o Google e me certificar de que hoje ela estaria saudável e feliz. Mas não fiz isso: fui me submetendo a cada uma das 445 páginas, cheias de suspense e algumas bem difíceis de suportar, com as descrições detalhadas de como Amanda foi torturada e estuprada várias e várias vezes por seus captores. Amanda e Nigel quando eram apenas amigos aventureiros, antes de serem capturados na Somália em 2008.
 Apesar desse suplício, “A Casa do Céu” não é um livro difícil de ler. Não é tampouco um livro que trata apenas de dor. Por incrível que pareça, trata também de compaixão, perdão e tolerância e resiliência. A casa do céu é o refúgio que Amanda criou em sua mente para suportar o sofrimento que viveu em várias outras casas pelo interior da Somália, para as quais ela e Nigel, seu amigo australiano raptado junto, foram levados ao longo daqueles 15 meses de cativeiro.
 Amanda é mostrada como uma pessoa de espírito realmente elevado. Sua confiança e otimismo a levaram a percorrer algumas das áreas mais perigosas do mundo, como o Iraque e o Afeganistão. Sua ambição em ser alguém na carreira de jornalista que ela inventou para si a levou para o lugar mais perigoso do mundo: a Somália. E lá ela conseguiu sobreviver por tanto tempo graças a uma capacidade impressionante de não desistir da vida e inventar maneiras de enxergar possibilidades boas diante de infortúnios terríveis. Jejuar para comer mais.
 Quando finalmente terminei de ler o livro, descobri que hoje Amanda é uma jovem de 36 anos que se tornou liderança, recebeu prêmios, deu discursos importantes e criou uma organização humanitária para ajudar justamente as crianças na Somália. Ela poderia ter se escondido em sua casinha, junto da família, para curar o estresse pós-traumático – e isso seria extremamente legítimo e provavelmente o que eu teria feito na mesma situação. Mas, não: ela foi curar o trauma tentando salvar, como uma gota num oceano, um dos países mais caóticos do planeta. Se isso não é ter um espírito elevado, eu não sei o que é. Ela ganhou uma fã. Bom, provavelmente, ganhou milhares de fãs, já que seu livro foi aclamado pela crítica e ficou entre os mais vendidos por um tempão. Amanda e Nigel depois de soltos, em 2009, muito mais magros. No cativeiro eles se converteram ao islã para tentarem ser mais bem tratados pelos sequestradores.


 Não se preocupem em pensar que estraguei a história: o fato de que Amanda foi sequestrada, ficou em cativeiro por 460 dias e depois foi libertada está até na orelha do livro. É a experiência de sobreviver a isso tudo o que tempera a história. É a forma como ela conta essa aventura íntima e particular que torna a leitura interessante. Tem muita coisa para acontecer nesses 15 meses, coisas que a gente nem imagina. Em vários momentos, fiquei tensa na minha cama, enquanto lia deitada, com o pescoço duro e o coração batendo acelerado. Isso é o efeito que uma história bem contada causa na gente. O que ficou de lição para mim com essa leitura é uma palavrinha que eu quase nunca uso: tenacidade. Os humanos são seres extremamente tenazes, ou capazes de serem, diante de circunstâncias inimagináveis. Se Amanda conseguiu se refugiar de torturas tão apavorantes apenas usando seu cérebro, nós, aqui, em situações muito menos árduas, certamente conseguimos também. Temos uma arma poderosíssima e ainda pouco explorada, que rege todos os nossos sentidos e sentimentos. O livro “My Stroke of Insight” já tinha me ensinado isso. “A Casa do Céu” reafirma o poder do cérebro diante de um problema muito diferente de um derrame. Um problema no campo social e político, não da saúde. Mas ambos usam o cérebro como escada para a sobrevivência. Que saibamos fazer isso mais e mais vezes, diante de problemas de todas as dimensões. A Casa do Céu Amanda Lindhout e Sara Corbett Tradução de Ivar Panazzolo Editora Novo Conceito, 2013 445 páginas De R$ 12,90 a R$ 39,90


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